domingo, 7 de dezembro de 2014

JOSÉ RÉGIO, ALÉM DO CÂNTICO NEGRO * Antonio Cabral Filho - Rj

JOSE REGIO,
Poeta Portugues, autor de um dos poemas mais lindos que eu conheço, Cântico Negro. Leiam-no:

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí.


*
SAIBAM MAIS....

http://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=335 
X
http://cvc.instituto-camoes.pt/espelhamentos/11/11.html 
X
http://www.jornaldepoesia.jor.br/ag56regio.htm 
X
http://www.antoniomiranda.com.br/iberoamerica/portugal/jose_regio.html 
X
JOSE REGIO 
recitando em video
https://www.youtube.com/watch?v=TBCd0vuxbFo 
***

domingo, 30 de novembro de 2014

domingo, 16 de novembro de 2014

CHARLES BAUDELAIRE 193 ANOS!! * ANTONIO CABRAL FILHO - RJ

*
Charles Baudelaire,
poeta francês, nasceu 09 de abril de 1821. Portanto,
está completando 193 anos. Vamos celebrá-lo!
*
O ALBATROZ

Às vezes, por folgar, os homens da equipagem
pegam de um albatroz, enorme ave do mar,
que segue - companheiro indolente de viagem -
o navio no abismo amargo a deslizar.

E por sobre o convés, mal estendido apenas,
o imperador do azul, canhestro e envergonhado,
asas que enchem de dó, grandes e de alvas penas,
eis que deixa arrastar como remos ao lado.

O alado viajor tomba como num limbo!
Hoje é cômico e feio, ontem tanto agradava!
Um ao seu bico leva o irritante cachimbo,
outro imita a coxear o enfermo que voava.

O poeta é semelhante ao príncipe do céu
que do arqueiro se ri e da tormenta no ar;
Exilado na terra e em meio do escarcéu,
as asas de gigante impedem-no de andar.
&
CORRESPONDÊNCIAS

A natureza é um templo onde vivos pilares
podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
fazem o homem passar através de florestas
de símbolos que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos além confundem seus rumores
na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
tão vasta como a noite e como a claridade,
harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de crianças
ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
e outros ricos, triunfais e podres na fragrância,

que possuem a expansão do universo sem termos
como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
que cantam dos sentidos o transporte imenso.
&
A UMA PASSANTE

A rua em derredor era um ruído incomum,
longa, magra, de luto e na dor majestosa,
uma mulher passou e com a mão faustosa
erguendo, balançando o festão e o debrum;

nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
no seu olhar, céu que germina furação,
a doçura que embala e o frenesi que mata.

Um, relâmpago e após a noite! - Aérea beldade,
e cujo olhar me fez renascer de repente,
só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
tu que eu teria amado - e o sabias demais!

Charles Baudelaire
As Flores do Mal
Tradução, introdução e notas:
Jamil  Almansur Haddad
Edição Cículo do Livro 1995.
*
SAIBA MAIS...
1 - http://www.youtube.com/watch?v=KpNvRD7-a6k
&
2 - http://www.poetry-archive.com/b/baudelaire_charles.html 
&
3 - http://www.algumapoesia.com.br/poesia/poesianet003.htm 
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